Vórtice, 29 de setembro de 1998, RAVE Curitiba
Espectros pintados a óleo apresentados sob argumentos lisérgicos.
Trance music. A noite. Vertigem e velocidade contínuos. Estados alterados da consciência. Luzes cambiantes.
Este é o clima da pintura recente de Marcelo Paciornik.
Uma leitura do instantâneo, de luzes que jogam e dançam na atmosfera do abalo noturno.
É a captação em tela de um momento no qual a manipulação da luz remete aos pixels do monitor do computador, do vídeo em zapping. Sua obra não possui luz solar: é uma camada virtual de luz elétrica noturna captada pelos pincéis à maneira da viragem de cor, justificando os estudos do artista em programação visual.
O instante é fixado nesta luz tão contemporânea que, paradoxalmente, pela escolha de cores pálidas quase monocromáticas feita pelo artista, também carrega nos tons terrenos uma dose de nostalgia das amarelecidas fotos antigas.
A dualidade também se apresenta no extremo cuidado quando da realização da pintura, em contraste com a composição vibrante que permite pela desfocalização indefinição e indeterminação propositais vôos ao imaginário de cada um.
Ora um rosto, ora uma paisagem, ora nada mesmo, a não ser pura pintura, são extraídos pelo olhar e vêm à tona sem preocupação pelo significado em contínuas associações de idéias.
A possível significação momentânea da tela passa tão rápida quanto as batidas do som primal da música que a acompanha, sendo logo substituída por uma mais nova percepção.
O interessante é que este efeito dinâmico é conseguido, pelo artista, por meio de um trabalho cerebral, fotográfico, de fixação do instantâneo, que se inicia no modo figurativo e se torna sugestivo, pela matéria pictórica caprichosamente penteada e igualmente cortante da diagonal, insinuando formas, sombras e fantasmas.
Fantasmas da noite e do tempo que, do mesmo modo na literatura universal, reúnem a vivência noturna, a atmosfera e a loucura de “O Retrato de Dorian Gray”com “O Médico e o Monstro” e nas estórias em quadrinhos de Moebius e Neil Gaiman.
É uma pintura dos tempos atuais, estranhamente contemporânea na forma e miticamente atemporal no conteúdo que se revela arquetípico, detentor dos domínios do bem e do mal.
Por isto mesmo, esta pintura tem alma, o que faz com que o gesto e o movimento sejam muito mais de quem olha, dela extraindo os significados que se transformam em variações, variantes ao longo do olhar. Tal como um espelho, deformado ou não, onde se pode Ter pluralidade de entendimentos e de percepções o que acontece nos estados alterados da conciência.
Assim, êxtases, paixões, sentidos ampliados, sentimentos destorcidos, dores, amores apoderam-se obsessiva e simultaneamente do olhar, comparados à própria imagem, compartilhando no entrelaçamento e justaposição suas texturas pictóricas.
É uma pintura que não se desvela é misteriosa, gótica, possuidora da alquimia que trabalha a matéria e condensa nos esboços o segredo das formas.
Nilza K Procopiac
Crítica de Arte | Art Criticism
 

 

Vórtice 1 - 120x160 cm - óleo sobre tela - 1998

 

 

Vórtice 2 - 120x160 cm - óleo sobre tela - 1998

 

 

Vórtice 3 - 120x160 cm - óleo sobre tela - 1998

 

 

Vórtice 4 - 120x160 cm - óleo sobre tela - 1998