Anjos e Corpos, 19 de junho de 1997
Quando Gerhard Richter, durante os anos 60, usava fotografias como modelo para suas pinturas, ele queria se opor à herança deixada pelo expressionismo abstrato, buscando também uma total sistematização de sua arte. Suas pinturas borradas, como que realizadas à partir de fotografias mal tiradas, mostravam a falsificação, a ilusão da verdade, o jogo entre dois meios artísticos, para interrogar a categoria da imagem.
Marcelo Paciornik não segue a mesma tradição e portanto nada deve negar de um passado que ele não viveu, no entanto a proposta destes dois artistas é em muitos pontos semelhante.
A origem no desenho gráfico de Marcelo poderia tê-lo conduzido a algumas aproximações do Pop Art, no entanto desde os seus primeiros trabalhos encontramos uma peocupação com a imagem complexa e sua representação no espaço bidimensional.
Problemática tipicamente pictórica, embora fosse no design gráfico que ele estivesse situado; aparentemente a comunicação visual se tornara uma espécie de prisão e que somente a arte trazia esta possibilidade de liberdade que ele procurava.
Mas se sua pintura é seu grito de liberdade, este grito é totalmente consciente, e assim foi buscar na fotografia uma realidade que estava próxima ao seu trabalho, mas esta realidade trazida pela fotografia já tinha passado por uma experiência na história da pintura. Seus primeiros trabalhos queriam romper os limites existentes entre os meios artísticos, as macrofotografias das labaredas de uma fogueira ou as fotos em detalhe de um fim de tarde no lago do Bariguí, mostravam que a fotografia podia imitar a pintura.
Nesta exposição ele faz o sentido inverso, é a pintura que toma o modelo fotográfico, uma vez que ele também tomou emprestado temas pictóricos como os retratos ou os torsos nús.
O modelo fotográfico tem sempre na sua origem a construção perspectiva renascentista; os anjos de pedra, imóveis, correspondem a este momento da arte, mas o tempo congelado pelo obturador é anulado pelos efeitos dinâmicos da pintura e o desfoque progressivo obtido pela superposição de traços chega até a redescoberta da gestualidade informal que apresenta esta pintura como uma realidade de segunda mão, já falsificada.
Segundo Marcelo as esculturas angelicais deveriam manifestar o antigo, a imagem do sonho, o próprio sono como prenúncio da morte, se opondo aos corpos nús, que são fortes expressões da linguagem contemporânea e representam o lado do moderno e do atual.
Mas o moderno de sua obra independe destes valores simbólicos, ele está no questionamento da especificidade dos meios que tinham sido ditados por Greengerg, na complexidade da composição onde a superfície é o espaço de mistura, de gênese múltipla, de hibridismo. A foto é entendida por ele como o “ready made” da pintura.
Esta espécie de genero hibrido é intrigante, é um espectro provocado pelo desfocado, pelo objeto banal, pela fotografia perdida. Mas é também uma armadilha, sua estratégia é o jogo entre a ilusão da verdade e a verdade da ilusão, os torsos nús nunca mostram o rosto, e quando o rosto lá está é um fantasma saído de um sonho ou distorcido por uma viagem alucinógina.
Os retratos são suas obras mais convencionais, presas ainda ao tratamento gráfico, mas o “foco” está num outro ponto que não o retrato e por isso perdem em nitidez e falam também da sua própria desmaterialização.
Fernando F. Bini
Professor de Historia da Arte
 

 

Anjo 1 - 120x160 - óleo sobre tela - 1997

 

 

Anjo 2 - 100x80 - óleo sobre tela - 1997

 

 

Anjo 3 - 200x100 - óleo sobre tela - 1997

 

 

Corpo 1 - 150x100 cm - óleo sobre tela - 1997

 

 

Corpo 2 - 160x120 cm - óleo sobre tela - 1997